| Céu Incandescente - A Viagem de Saulo |
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"Como pode dormir com este sol na cara, animal ? Acorda aí, nos temos um passeio combinado pra hoje esqueceu ?" Olhei pra aquela figurinha esguia e frágil e não pude deixar de rir da coragem dele, vestia uma roupa complemente branca que refletia a luz de Angus de maneira irritante, a cor branca, tao rara em Osteo, parecia uma constante na vida daquele humano, diretamente a luz do primeiro sol (como ele o chamava) nunca tinha me incomodado, nós não percebiamos a luminosidade antes de Hugo quebrar o horizonte, mas aquele reflexo era muito incomodo. Ele encontrava-se sentado sobre uma maquina que não tocava o chão, flutuava com um leve zumbido, sorria escancaradamente e me chutava as costelas, pra que eu me apresasse, me levantei, balancei o corpo para retirar os pedaços de grama que haviam grudado em minha pele, sob minha capa, durante a noite, "Voce chacoalha como um cachorro que andou na chuva!". Meus músculos endurecidos pela noite de sono interrompida pareciam não prontos pra caminhada, me ergui sob minhas pernas e estiquei meu corpo em uma gostosa espreguiçada, o homenzinho se assustou com o meu urro e se encolheu. "As vezes esqueço como voce é grande! Gosto de voce, mas se rugir assim de novo pra mim, eu te dou um tiro! O seguro morreu de velho, sabe ?" Disse batendo com a mão em uma pequenina maquina presa a cintura. Aquilo me assustava, não pelo que ele poderia fazer com a arma, mas porque qualquer instrumento que pudesse ferir a distancia era terminantemente proibido em Osteo, e se fossemos pegos com aquela arma, eu teria que ser punido com uma surra publica, o que era extremamente humilhante, alem disso sabia que se aquele pequeno ser ferisse algum Ogli com aquela arma, ele seria rapidamente morto, por qualquer outro que estivesse proximo, já havia explicado a ele, que nem mesmo eu pensaria duas vezes se ele atirasse em um de nós, mesmo que fosse para salvar minha vida ! Era uma das leis mais antigas de meu povo, armas de caça eram permitidas, mas o orgulho nunca permitiria a um de nós cacar de outra maneira que não fosse com as mãos e com nossas adagas! Ferir outro Ogli com uma arma era inconcebivel e injustificavel. Certa feita, à muitas decadas, eu presenciara algo assim, um de nós, enlouqueceu, invadiu um laboratório de teste e concequiu um aparelho utilizado para escavar rochas, tinha uns 50 centimetros e produzia um fino raio de luz concentrado, correu para a rua e atingiu um dos lideres, que o havia punido em publico, arrancando sua mão direita, eu estava a uns 60 metros dele e nunca havia visto alguem ser atingido por uma arma, o toco calcinado do braço do lider cheirava queimado, embora ele não tenha emitido nenhum ruido, aquilo parecia doer muito. Um terceiro Ogli, a poucos metros do agressor, apanhou a mão da arma com calma, retirando a arma e jogando o outro contra a parede de um predio proximo a uns 8 metros, na mesma hora o agressor percebeu o que iria acontecer e tentou se levantar, mas não houve tempo, outros proximos correram em sua direção, como raios e o imobilizaram. Não é fácil matar um Ogli, e dói muito ! Nossos orgãos vitais são encapsulados em caixas de ossos, e só possuimos quatro grandes arterias e veias que correm também protegidas em um tubo flexivel composto de escamas de cartilagem superpostas, daí em diante o sangue flui em milhoes de capilares que bloqueiam-se imediatamente se rompidos. Não existe uma maneira de com as mãos ou com a adaga, de um só golpe matar um de nós. A maneira mais rápida é o rompimento do tubo onde correm as artérias, se nem com um de nós desacordado é fácil, imagine com um Ogli reagindo, tentando salvar sua prória vida. É uma cena para não ser esquecida, e eu não esqueci, o atirador debateu-se e foi desmembrado pelos outros, perdendo um braço e as duas pernas e ainda assim tentava morder os agressores, na tentativa de soltar o braço restante, seguro por outros dois, uma adaga foi enfiada sobre sua placa peitoral, entre os dois corações, e alcançou o tubo entrando entre duas escamas osseas, bloqueando o fluxo do coração maior, o que bloqueou o retorno do fluxo do sangue para o segundo coração, que entrou em colapso, parando de alimentar o cerebro., em um ultimo espasmo desesperado ele atirou os dois que seguravam seu braço a metros e caiu a poucos metros de mim, sobre o toco do braço arrancado, a outra mão retirou a adaga com um puxão e o sangue, que deveria ser quase roxo, estava cinzento com a descarga das enzimas de estimulo e espirrou a muitos metros, me banhando de modo nojento. Ele ergueu o rosto olhando para mim, olhos vazios e cheios de ódio e urrou, ponto a mostra suas presas, o grito mental de agonia do morto alcançou a mente coletiva, que ate entao não sentira a dor, somos incapazes de transmitir dor ao coletivo conscientemente, mas quando o nosso sistema entre em colapso o controle se desfaz e todos sentimos tudo. Todos os machos do planeta gritaram ao mesmo tempo e muitos cairam, eu ? Eu desmaiei com o choque ! Por fim, esta lei, pra nós é sagrada, o codigo do guerreiro começa com ela : "Um de nós outros que a si ou a outrem feri sem contato justo, ou possibilidade de defesa, pelas mãos de qualquer um cairá, e deverá cair, pelas mãos de quantos forem, e nada entre os pilares de Hugo e Angus, poderá por ele interceder, pois o sangue do que feri com covardia, há de alimentar a erva daninha de nosso solo" Esta lei antiga, fora o que pricipiara a partida dos humanos, foi o estopim do abandono do planeta pela colonia, e Hermes lembrava-se disso, com certeza, mas insistia em carregar aquela arma consigo. O pequeno humano estava impaciente e movimentava a maquina de um lado para o outro, pensei um pouco, o que será que os arquivos de meu amigo não conheciam de Osteo ? Consultei o coletivo quanto ao que sabiamos do conhecimento dos humanos a nosso respeito, e algumas opções mostraram-se interessantes, optei, antes, pelo vale da morte, pois ele devia possuir informações a respeito, mas com certeza nunca havia posto os pés no mesmo, continuariamos pelo cinto de Hugo , visitariamos a Cepa e por fim a cidade, onde pernoitariamos, expliquei as minhas intenções a Hermes, sem dar detalhes quanto aos lugares e ele concordou rapidamente, seria um longo passeio. "Voce acha que pode me acompanhar, Hermes ?" "Voce esta brincando, este brinquedinho vai encher teu pelinho de poeira" Me dirigi ao norte em posição de corrida, avisei o coletivo de meu destino, gritei um pedido de proteção a Hugo que surgia rubro no horizonte ao meu lado esquerdo, desliguei o coletivo e meus sentidos auxiliares, foquei o caminho e parti!
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